Apresentao
Finalmente chegamos ao quarto e ltimo volume da srie Psicologia do Desenvolvimento que apresenta os 
aspectos psicolgicos do 
desenvolvimento da criana em idade escolar e do adolescente. 
Acompanhamos ao longo dos quatro volumes o processo complexo de formao e desenvolvimento das 
estruturas afetivas e cognitivas, que permitem ao sujeito responder adequadamente, dentro de cada faixa 
etria, s solicitaes do mundo externo. 
Do ponto de vista do desenvovimento cognitivo, descrito a partir do modelo piagetiano, observamos como 
so formados os primeiros esquemas mentais, proporcionando a organizao bsica da cognio na primeira 
infncia, que d  criana uma forma rudimentar de equilbrio, caracterizada pela atuao a nvel sensorial-
motor. 
O pensamento simblico, decorrente da aquisio da linguagem e tpico da idade pr-escolar, permite o 
enriquecimento do mundo interno. Isto ocorre pelo processo de assimilao do real ao eu, pelo 
desenvolvimento da fantasia, pela tendncia ldica do pensamento, enfim, pelo egocentrismo que, ao dar ao 
sujeito uma compreenso da realidade que parte de seu prprio eu, o coloca num processo de desequilbrio em 
relao ao conhecimento. Se ao nvel da ao a criana pr-operatria consegue um equilbrio que d 
estabilidade s suas atividades de vida prtica, ao nvel do conhecimento ela continua instvel, oscilante, em 
funo da ausncia de esquemas conceituais, da noo de conservao e da irreversibilidade tpica do 
pensamento iransdutivo. 
J na idade escolar, os pr-conceitos adquiridos na fase anterior se integram, dando lugar aos esquemas 
conceituais verdadeiros. A transduo  substituda pela conexo lgica, resultando da a reversibilidade que 
permite a execuo das operaes mentais, O raciocnio torna-se lgico, coerente, internalizado. As vrias 
informaes so organizadas em sistemas de crenas que do estabilidade s relaes que o sujeito manter 
com o mundo exterior. Atingir, ento, uma forma de equilbrio que, embora ainda limite em alguns aspectos a 
compreenso do real, torna possveis uma adaptao, um entendimento e uma atuao na realidade externa 
superiores ao que demons lx 
trava nas fases precedentes. Enfim, usando a linguagem piagetiana, podemos dizer que haver um predomnio 
do processo de acomodao do eu ao real, substituindo o processo de assimilao do real ao eu, predominante 
no perodo anterior. 
Certas dificuldades, porm, permanecero e s sero superadas na adolescncia, com o advento do 
pensamento lgico-formal. Ele caracteriza a forma final de equilbrio, ou seja, a posibi1idade de executar 
operaes mentais utilizando esquemas conceituais abstratos e seguindo as leis da lgica formal. O sujeito 
estar apto, ento, para o conhecimento cientfico, para o pensamento filosfico, para a discusso de sistemas 
polticos e econmicos ou doutrinas religiosas. Seu pensamento ser internalizado, socializado, no sentido de 
que poder ser entendido por qualquer outra pessoa que tenha acesso ao contedo, visto que todos os 
adultos raciocinam de acordo com as mesmas leis (aquelas ditadas pela lgica formal). 
Vemos, como afirma o prprio Piaget, que as aquisies tpicas de cada perodo no se perdem, mas, ao 
contrrio, servem de base, suportam as aquisies posteriores, dando ao desenvolvimento cognitivo um 
carter de continuidade e de harmonia. 
A evoluo intelectual, como vimos em todos os volumes desta srie, est diretamente ligada ao processo de 
socializao e tem, entre outras, a funo bsica de permitir ao sujeito no s a adaptao ao ambiente fsico, 
mas tambm ao ambiente social. Notamos que, j no perodo sensorial-motor, um dos principais esquemas que 
o beb desenvolve  o de sua prpria me. Este esquema, baseado na aquisio da noo de permanncia dos 
objetos, resulta da interao afetiva e de cuidados entre a criana e esta figura que, sem dvida, caracteriza o 
primeiro e talvez o mais importante relacionamento social do sujeito. 
Na fase pr-operacional, o convvio estende-se a outros adultos, fora da famlia nuclear, e tambm a outras 
crianas da mesma idade. Porm, o carter egocntrico do pensamento determina tambm o egocentrismo da 
linguagem e das relaes sociais, exemplificados pelo monlogo e pelo brinquedo paralelo. 
No perodo operacional concreto,  medida que o pensamento se socializa, as interaes com os adultos e os 
companheiros tornam-se realmente cooperativas, permitindo os jogos de regras, os esportes grupais, os 
projetos comuns etc. Enfim,  como se a criana fosse gradualmente saindo de si mesma para um contato cada 
ez mais efetivo com o ambiente fsico e social. E isto s se torna possvel pelo desenvolvimento de estruturas 
mentais e de leis de funcionamento destas estruturas que permitem cada vez maior flexibilidade de 
entendimento, criando melhores condies de troca a nvel social. 
Na adolescncia, em funo do alcance do pensamento abstrato, o adolescente poder no apenas se relacionar com as 
pessoas de seu ambiente imediato como com o prprio cosmo, dando vazo s angstias existenciais tpicas desta fase de 
definies da identidade pessoal, de valores, de ideologias, de crenas religiosas etc. 
 no contato com os companheiros ou com os pais e outros adultos que o adolescente ir desenvolver a reflexo, a crtica e 
o seu posicionamento pessoal diante da realidade social.  na reflexo internalizada, individualizada, que o adolescente 
conseguir, por atos cognitivos, a sntese indispensvel  integridade do Ego e a definio de sua identidade pessoal. 
Vemos, portanto, que o desenvolvimento cognitivo no ocorre independentemente do desenvolvimento emocional ou 
social, como se cada uma destas reas fosse um compartimento estanque apenas acoplado aos outros. Acontece justamente 
o contrrio: o processo  integrado, dando ao desenvolvimento da personalidade um carter harmnico. 
Faremos, ento, um breve resumo do que ocorre com a criana a nvel emocional. Para tanto seria interessante estabelecer 
uma comparao entre a riqueza da personalidade de um adolescente e o primitivismo que caracteriza o recm-nascido. O 
estudo do desenvolvimento da personalidade consiste exatamente em verificar quais so os processos, as variveis, que 
tornam possvel esta construo progressiva. 
Ao nascer, a criana  dotada de alguns poucos reflexos e de um psiquismo absolutamente primitivo, decorrente 
diretamente dos aspectos orgnicos. Ser precisamente o contato com a figura materna (e a j entra o aspecto social) que 
facilitar a organizao daquele caos em que se constituem o psiquismo da criana e a progressiva diferenciao e 
construo do mundo interno. A partir do vnculo com esta figura carinhosa, provedora, estimuladora, a criana ir 
gradualmente diferenciando o seu Ego, parte ou aspecto da personalidade que lhe dar um sentido de unidade pessoal, 
possibilitando o desenvolvimento de um sentimento de identidade pessoal. Os mecanismos de introjeo e projeo, 
amplamente descritos nos volumes desta srie, permitem  criana absorver caractersticas da realidade externa, 
representada, no caso, principalmente pela me, tornando-as suas prprias, e, ao mesmo tempo, colocar para fora vivncias 
suas, agressivas ou no. 
Durante as fases iniciais  oral e anal , designadas por muitos autores como infncia inicial, ocorrer o desenvolvimento de 
caractersticas nucleares, bsicas, da personalidade que no s representam as suas estruturas mais arcaicas, como tambm 
definem os modelos 
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de relacionamento afetivo, de comportamentos, que o sujeito exicir em fases posteriores da vida, at mesmo 
na vida adulta. Neste sentido  possvel falar em aspectos orais e anais da personalidade. Isto significa que as 
vivncias intrpsquicas e o relacionamento da criana com seus pais nesta fase podero ser os determinantes 
fundamentais das solues que o sujeito adotar para si prprio em fases posteriores da vida. Exemplificando, 
poderamos lembrar que as vivncias da 2. metade do 1. ano da vida so retomadas na adolescncia 
(inconscientemente,  claro) e podem afetar, por exemplo, a escolha profissional do sujeito. Outra relao que 
poderamos mencionar se refere s bases da identidade sexual feminina, que so lanadas no relacionamento 
do beb feminino com o seio materno, na fase oral. Observaes clnicas, de mulheres em tratamento 
psicanaltico, levam a crer que a menina, cuja me obteve sucesso na amamentao (a nvel psicolgico,  
claro), ter melhores condies para assumir a prpria genitalidade e ter uma realizao plena em sua vida 
sexual. 
A fase flica, fundamental pela vivncia edpica, tambm ser retomada (embora de outra forma) na 
adolescncia, permitindo que as identificaes com os genitores se transformem em identidade e que a energia 
da libido seja dirigida para um parceiro do sexo oposto, fora da famlia. Resulta da a possibilidade de obteno 
de prazer e satisfao na vida a dois e na constituio de uma nova famlia. 
Em nossa cultura, a idade escolar  a fase em que a criana passa a freqentar a escola elementar, a conviver 
mais com os companheiros, enfim, comea a deslocar uma parte de seus interesses e de sua energia para outras 
pessoas e outras situaes diferentes daquelas proporcionadas pela famlia. Passa ento a ter contato com 
regras de conduta determinadas pela escola, com valores divergentes daqueles de seu lar, trazidos por crianas 
com outros tipos de formao, absorve preconceitos existentes na cultura, defrontando-se com a necessidade 
de se adaptar a tudo isso. As suas habilidades e aptides so avaliadas pelos professores, pelos 
companheiros e pela prpria criana. A cor de sua pele, sua aparncia fsica, a crena religiosa de sua famlia 
etc. so questionadas e podem ser alvo de discriminaes. 
A estrutura bsica da personalidade, j formada nas fases anteriores, possibilitar ou no  criana uma 
soluo satisfatria para estas novas vivncias, facilitando ou no a adaptao. 
Ao mesmo tempo, as vivncias desta fase fornecero elementos para o autoconceito do sujeito, no sentido de 
se sentir apto, produtivo, capaz e competente ou, ao contrrio, inapto, improdutivo, incapaz e incompetente. 
Estas caractersticas repercutiro na idade adulta, 
facilitando, dificultando ou mesmo impedindo a realizao profissional plena. 
Na adolescncia todas as vivncias anteriores, suas gratificaes e seus conflitos sero retomados, gerando 
um desequilbrio entre as instncias psquicas, uma desestruturao do Ego, o que explica o comportamento 
impulsivo e instvel do jovem. Mas a qualidade destas vivncias infantis, aliada ao relacionamento familiar na 
adolescncia, a fatores constitucionais do sujeito e, ainda,  sua situao social e econmica,  que permitir a 
integrao, o afloramento da identidade pessoal, o assumir-se como pessoa capaz de realizar-se afetivamente, 
de constituir famlia, de trabalhar no s para prover o prprio sustento, mas de encontrar no trabalho uma 
fonte de gratificaes e de crescimento pessoal. 
A partir da, novas fases viro, pois, obviamente, o desenvolvimento da personalidade no cessa durante toda 
a vida do indivduo. No entanto, foge aos nossos objetivos, neste trabalho, estudar as etapas de 
desenvolvimento do indivduo adulto. 
Com esta srie esperamos ter contribudo para que o leitor adquira noes bsicas sobre o desenvolvimento 
infantil. Novamente salientamos que nossos propsitos no foram oferecer uma apresentao exaustiva e 
profunda deste processo, mas apenas fazer uma exposio sucinta, realando os aspectos que nos parecem 
fundamentais em cada fase. 
Clara Regina Rappaport 
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